(por LIVIA DEODATO)
Esta é a história de uma menina-borboleta,de um velho querido que vivia rodeado de crianças imaginárias, de um vaqueiro durão só na carcaça e outro (seu amigo, inclusive) que, enterrado num lamaçal, já espantou o Coisa-Ruim e rejeitou o convite de Deus para subira o céu. Também é a história de uma trupe de circo mambembe, de uma mulher que vivia como um passarinho e de uma garota que se vê obrigada a enfrentar um caminho de difícil retorno – o da vida. O universo descrito acima pode parecer fantástico, mas foi em grande parte vivenciado pelo Grupo Redimunho em duas incursões feitas pelo sertão mineiro, mais precisamente o vivido e reportado por João Guimarães Rosa. Morro da Garça, região das Três Marias, cidades ribeirinhas ao Urucuia e a terra natal de Guimarães Rosa, Cordisburgo, foram alguns dos destinos da companhia teatral fundada em São Paulo em 2003 e formada por 15 atores vindos de diversos cantos do País. A primeira viagem do grupo, realizada em 2005, originou o primeiro trabalho do grupo no ano seguinte, A Casa, premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) por melhor texto. Pois para lá voltaram em novembro do ano passado e agora encenam novos contos com cheirinho daquela terra e com a alma daquela gente que vive um tempo sem ponteiros. Os 15 dias de excursão renderam ao Grupo Redimunho pedaços de vida e memória de personalidades como Calina Guimarães, prima do autor de Grande Sertão: Veredas, Seu Antônio Sozinho, fabricante de acordeão de Cordisburgo, e Dona Durvalina, uma simpática senhora que tem rezas viradas de ponta cabeça e relógios de todos os tamanhos pendurados na parede de sua casa. “E detalhe: nenhum deles marcava a hora certa”, conta o diretor e dramaturgo do Redimunho, Rudifran Pompeu. Também lá conheceram Dona Rosa, que exerceu o ofício de prostituta durante muitos anos e jamais acreditou no sofrimento. Todos esses personagens – e outros tantos mais – ganharam uma vida paralela na capital paulista, no espetáculo Vesperais nas Janelas, a segunda parte de uma futura trilogia, e passam a habitar, a partir de amanhã e até o dia 20 de dezembro, um antigo casarão da família de advogados Almeida Nogueira, datado de 1911, na Rua Major Diogo, nº 91, onde desde 2005 funciona a Escola Paulista de Restauro. “Como não temos condições de pagar pelos direitos autorais de Guimarães Rosa, fizemos como ele: fomos a campo, vivenciamos e reportamos tudo o que gostaríamos de apresentar”, sentencia Rudifran, em nome do Grupo Redimunho que foi contemplado com a Lei do Fomento em setembro do ano passado. E cada uma das histórias apresentadas é acompanhada pelo público de forma entrecortada e itinerante – desta vez, somente utilizando o andar térreo e uma das laterais do casarão, onde Rudifran e o elenco montaram com os próprios braços uma arquibancada com capacidade para até 30 pessoas. “As histórias com dados mais reais acontecem dentro da casa, enquanto as mais fantásticas serão mostradas do lado de fora, na segunda parte do espetáculo”, detalha o dramaturgo e diretor. Um Arauto (Edmilson Cordeiro) que usa monóculo e carrega um cajado, vestido com um fraque de veludo vermelho, conduz o público por toda essa poesia de um tempo desacelerado que tem lugar não tão longe daqui. Pendurado em seu pescoço, ele carrega um dos preditos do sábio Guimarães Rosa: “Deus nos dá coisas e pessoas para aprendermos a alegria. Depois retoma coisas e pessoas para ver se já somos capazes da alegria sozinha.” A primeira história que ele introduz foi retirada de um episódio vivido pela companhia durante sua última estada na pousada do Laerte, em Cordisburgo. Numa ensolarada e abafada tarde, Janaína Silva, uma das atrizes do Redimunho, foi chamar Rudifran para ver com seus próprios olhos o que ela e alguns outros atores tinham acabado de encontrar: um cruzeiro e, debaixo dele, haviam sido enterradas partes quebradas de imagens de santos. “Eles começaram a cavucar e encontraram cabeças, braços e pernas. Ainda disse pra eles não mexerem, pois aquilo fazia parte de um ritual que mais tarde descobrimos, o de chamar chuva”, relembra Rudifran. Havia seis meses que o povoado da região não recebia sequer uma gota de água sobre suas cabeças. No mesmo dia, só que à noite, o maior temporal baixou sobre Cordisburgo, “com raios, trovões e tudo o mais”. O que hoje preferem chamar apenas de coincidência. A prova disso está, inclusive, em um dos extras do DVD d’A Casa, que vai ser vendido nos dias de apresentação. Transposto para a cena, dentro do casarão, o que deveria virar um acontecimento pelas mãos dos meninos Agripa, Sandinha e Antonio se torna uma ‘trapaiada’ só. Quando estão a caminho do alto do morro para realizar o ritual da chuva, Sandinha se dá conta de que esqueceu o item mais importante, a cruz. Uma oração em substituição daria conta? Quem sabe num coro com a platéia...
Preste atenção œ ...no símbolo de infinito, presente na obra de Guimarães Rosa e em alguma parte do corpo de todos os 15 atores. œ ...quando Marta, a mulher que vivia como um passarinho, empoleirada na janela do sobrado, diz que nunca fugiu do“diabo branco”. É o psiquiatra no entendimento de um sertaneja que o grupo encontrou pelas andanças no interior de Minas Gerais. œ ...nos possíveis morcegos que podem sobrevoar o quintal, enquanto a trupe de circo mambembe entra em cena. Agora é época das jabuticabas e ameixas e é justamente atrás delas que os animais estão. œ ...no oratório montado do lado esquerdo de quem entra no casarão, cheio de santinhos com diversas imagens e rezas. “Ele nos protegeu durante as apresentações d’A Casa e que assim seja durante Vesperais nas Janelas”, diz Rudifran. œ...no excelente ator Edmilson Cordeiro, que interpreta o Arauto, condutor do público por todas as histórias. Ele tem deficiência visual no olho esquerdo, onde justamente apóia o monóculo. œ ...nas letras das canções entoadas pelos atores. Muitas são do folclore popular, algumas são de autoria do Grupo Redimunho e outras são bastante conhecidas e admiradas, como é o caso de Assum Preto, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Todas esbanjando poesia e disponíveis para a venda.
Serviço Vesperais na Janela. 140 min. 12 anos. Casarão da Escola Paulista de Restauro (20 lug.). Rua Major Diogo, 91, 3326-2700. Sáb., 21 h; dom., 19 h. R$ 30 |