(por DANIELA TÓFOLI)
Acabou o sossego dos fantasmas que habitavam o antigo casarão italiano da rua Major Diogo, no Bexiga, centro de São Paulo. Há anos esquecidos na escura masmorra do lar da família Almeida Nogueira, eles serão despejados por uma equipe de restauradores, arquitetos e historiadores que estão tirando a poeira de cada cômodo da casa e que, em um mês, irão inaugurar a Escola Paulista de Restauro. Criada para formar eletricistas, marceneiros, encanadores e todo tipo de mão-de-obra especializada em restauro, a escola será a primeira da cidade a abastecer o mercado de profissionais para trabalhar com monumentos, museus e fachadas históricas. Também vai oferecer cursos variados para universitários e para jovens do bairro interessados em educação patrimonial. As aulas serão gratuitas para os trabalhadores e jovens, mas quem está na faculdade terá que pagar. Com o enfoque em projetos de restauro, o primeiro curso começará em 16 de novembro (leia texto nesta página) e será voltado aos universitários. A primeira oficina para mão-de-obra ainda não tem data marcada, mas será destinada a eletricistas interessados em se especializar em iluminação de monumentos e aprender como trabalhar em edificações antigas. "Não existe pessoal especializada na cidade para esses trabalhos. Queremos formar profissionais que saibam como funciona uma restauração", explica Luís Cézar Corazza, diretor do Museu a Céu Aberto, um das responsáveis pela Escola Paulista de Restauro. "Eles precisam saber onde quebrar uma parede e como fazer uma pintura, por exemplo." Localizado no número 91 da Major Diogo, o casarão italiano foi cedido pelos Almeida Nogueira para o Museu a Céu Aberto (uma organização da sociedade civil de interesse público de conservação do patrimônio nacional) e para a Companhia de Restauro (uma empresa privada). Eles serão os responsáveis pela restauração e pela conservação da casa durante sete anos, prorrogáveis por mais sete. O museu e a companhia também coordenarão os cursos, o café a a biblioteca que irão funcionar no local e estão em busca de patrocinadores. "Queremos que seja um espaço de formação e de convivência", afirma Francisco Zorzete, dono da Companhia de Restauro. "E que a população possa trocar conhecimentos e discutir sobre a arquitetura da cidade em um local recuperado", diz. A restauração da casa, que é um exemplar típico da arquitetura italiana do começo do século 20, só deve começar em 2006 e será feita pelos alunos. "O primeiro grande trabalho da escola será justamente restaurar a residência", conta Zorzete. "Assim, os alunos vão aprender na prática", afirma.
Conservação No casarão, tudo é original. As janelas com vidro fantasia coloridos até que estão bem conservadas. Já as paredes vão precisar de muitas horas de trabalho. Debaixo da tinta verde que cobre os ambientes, onde não há papel de parede nem azulejo, murais que podem ser da década de 20 estão escondidos. Para recuperá-los, os restauradores de pintura mural Sidney José Fischer e Kátia Regina Magri, que darão aulas na Escola Paulista de Restauro ainda neste ano, terão que ter muito cuidado. "Vamos ensinar a técnica aos alunos, mas eles precisarão de muita paciência", diz Sidney. De acordo com ele, em alguns cômodos as evidências dos murais são grandes, porém há locais onde estão escondidos. "Tirar a tinta de uma parede é como tirar o pó de um objeto antigo. É um trabalho de arqueólogo", afirma.
Tataraneto de patriarca lembra da masmorra
O perfume das uvaias do quintal não desgrudam da memória de Luiz Carlos Sanson, 43, tataraneto de José Luiz de Almeida Nogueira -o responsável pela construção do casarão do Bexiga, no começo do século passado. O medo da masmorra, também não. Instalado no porão da casa de 700 m2, o quarto escuro é cheio de pilares e portinhas, que ninguém ainda sabe direito onde vai dar nem para que eram usadas. Luiz Carlos só tem certeza de que não gostava nem de passar em frente ao quartinho quando morou lá, de 1980 a 1991. Preferia ficar na varanda, no segundo andar, vendo o jardim e sentindo o cheiro das árvores. Ou na biblioteca do escritório de advocacia, que ficava no primeiro andar, onde há dezenas e dezenas de exemplares de uma coleção de livros escrita pelo tataravô em 1907, chamada "Tradições e Reminiscências", sobre a fundação da Faculdade São Francisco. A família Almeida Nogueira era toda de advogados. Gostava de livros de viagens, de música e de fotografias. Perdidos pelos cantos do casarão, vários objetos estão sendo encontrados a cada visita dos arquitetos que vão ajudar a restaurá-lo. Na quarta-feira passada, quando a Folha foi conhecer o local, foram achados um guia de ruas da cidade de São Paulo de 1954, ano do 4º Centenário, e uma coleção do ""Linguaphone" -um curso de conversação de inglês em discos de 78 rotações. A última representante a morar na residência foi uma tia de Luiz Carlos. Há quatro anos, ela precisou ir para um clínica e, desde então, o lugar ficou vazio. "A gente não sabia direito o que fazer com o imóvel até que conheci o trabalho da Companhia de Restauro e começamos a conversar sobre o projeto", lembra. O casarão encantou os restauradores porque conservou muitos elementos da rotina do começo do século 20, como as pias dentro dos quartos. Outro exemplo é o sistema de campainhas presente em cada cômodo -cuja central ficava na cozinha-, que servia para chamar os empregados e foi precursor do interfone. Além de cultos e ricos, os Almeida Nogueira eram católicos. Bem na entrada principal da casa, uma placa de metal sobrevive aos estragos do tempo. "Meu Deus, chovam as suas bênçãos sobre esta casa e sob seu teto, reinem a harmonia, a concordância e o amor. Amém!", diz a gravação, de 4 de novembro de 1911, assinada pelo tataravô de Luiz Carlos.
Futuro do casarão Daqui exato um mês, começa o curso "Metodologia de Projetos de Restauro" no casarão. Coordenado pela arquiteta Ana Marta Ditolvo, especialista em preservação do patrimônio histórico, ele será voltado a alunos de arquitetura ou de história que desejam se especializar em projetos. A turma terá como missão concluir a pesquisa histórica da casa e preparar uma proposta para que cada ambiente seja recuperado. "É preciso avaliar a situação de todos os itens da casa, do chão ao teto, para sugerir soluções possíveis", diz Ditolvo. O primeiro curso tem duração de duas semanas e 20 vagas. O preço ainda não está definido. Os interessados em se inscrever devem ligar para 0/xx/11/3326-2700. |