Restaurando a História de São Paulo (Revista URBS, 01/04/06)

(por MARCUS LOPES)

 

A primeira impressão de quem passa pelo número 91 da Rua Major Diogo, como não se vê quase ninguém circulando por ali, é que o suntuoso casarão aguarda o mesmo destino de muitas casas antigas da região do Bexiga. Como foram construídas em terrenos grandes e posteriormente foram sendo abandonadas, acabaram sendo derrubadas para a construção de prédios ou a instalação de estacionamentos.
Nem uma coisa e nem outra. Desde o ano passado, a residência Almeida Nogueira abriga a Escola Paulista de Restauro, a primeira escola da cidade criada especialmente para o ensino do restauro e preservação do patrimônio histórico. O espaço oferece cursos multidisciplinares
e extra-acadêmicos para a formação de mão-de-obra especializada na recuperação de bens históricos em todos os níveis, desde pedreiros e encanadores até arquitetos e historiadores.
“Só há uma saída para a preservação do patrimônio histórico: educar as pessoas”, explica Francisco Zorzete, proprietário da Companhia de Restauro e um dos idealizadores do projeto. A idéia de montar a escola surgiu no ano passado, quando um dos herdeiros da família Almeida Nogueira apresentou o casarão a Zorzete e perguntou o que podia ser feito. “Pensei no meu grande sonho, que era montar uma escola de restauro”, lembra. A família cedeu a casa por dez anos ao Museu a Céu Aberto, uma Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) e à Companhia do Restauro, que montaram a escola.
Em novembro foi realizado o primeiro curso, de Metodologia de Projetos de Restauro. A primeira turma – com 20 pessoas, entre historiadores e arquitetos – teve 30 horas de aulas práticas e teóricas para atuação na área de restauração do patrimônio histórico.
Os planos para 2006 são ambiciosos. A meta é atender cerca de 500 alunos em cursos de metodologia de projetos, iluminação e pintura, entre outros. O público também deve ser mais eclético. Além de historiadores e arquitetos, a proposta é atrair técnicos, como pedreiros, encanadores e eletricistas. “Há uma carência de mão de obra especializada, como carpinteiros e pedreiros”, explica Zorzete, cuja empresa foi responsável pela restauração de vários bens históricos paulistanos no Centro, como o Centro Cultural Banco do Brasil, o Shopping Light e o Edifício Itália. “É muito importante para quem está executando o trabalho de restauro discutir as técnicas de recuperação, o respeito à edificação e suas características originais”,
completa.
Paciência, muita paciência. Assim a arquiteta Paula Fernandes Dias define o trabalho de restauração de bens históricos. Apaixonada pela área de tombamento e preservação, ela participou da primeira turma da Escola Paulista de Restauro, no ano passado. “Tudo tem de ter paciência, é como uma terapia”, diz Paula, que destaca as aulas práticas de restauração. Os alunos aprenderam, entre outras técnicas, a retirada de pinturas das paredes com espátulas, para chegar à pintura original. “Às vezes há cinco ou mais camadas de tinta, e nós vamos descobrindo murais, desenhos etc. É surpreendente o modo como é feito sem machucar o detalhe original”, conta.
Para a arquiteta, cursos de restauração são essenciais para o aprimoramento profissional. Ela lembra que a reforma de imóveis históricos, ou mesmo novas construções próximas a locais tombados, exige uma série de estudos técnicos e legais para não comprometer o bem histórico. “Quando o arquiteto conhece essas questões, talvez nem seja preciso contratar outro profissional para fazer esses levantamentos.” Além das exigências legais para alterações em edificações tombadas, a arquiteta lembra que há outras restrições, como volumetria e uso adequado da parte interna do imóvel. “É lógico que tudo depende do uso que o proprietário pretende dar para o imóvel e se é permitido por lei”, salienta.

Cursos
Os cursos seguem dois eixos centrais: pensar na questão da preservação aliada às técnicas práticas de restauração. A própria sede da escola, que deve ser completamente restaurada, servirá como laboratório prático e teórico dos alunos. Construída no final da década de 1910, para abrigar a família do advogado José Luiz de Almeida Nogueira, a casa, de estilo eclético, tem características peculiares em seus mais de 700 m2 e 14 cômodos. Em 2002, uma resolução do Conpresp (órgão municipal de defesa do patrimônio histórico) incluiu a casa na lista de imóveis tombados pelo inegável valor histórico, arquitetônico, ambiental e afetivo.
E há muito trabalho para ser realizado, já que tudo é original, das portas de pinho-de-riga às janelas. A primeira curiosidade refere-se ao próprio projeto da construção, que está sendo estudado pela Companhia de Restauro. Não se sabe exatamente o motivo, mas, apesar do tamanho da residência, há apenas um banheiro e localizado perto da cozinha. Uma das hipóteses é que o projeto original não contemplava banheiro interno, prática comum na época, e que depois houve essa adaptação. Ainda na cozinha, um curioso sistema de campainha manual instalado perto das despensas servia para acionar os empregados pelos donos diretamente dos cômodos. Outra peça que chama a atenção é um lavatório de louça instalado em um dos quartos.
O grande quintal, que abrigava o pomar, também servirá como sala de aula a céu aberto para os alunos, no curso de arqueologia urbana. “Toda casa muito antiga tem coisas interessantes enterradas no quintal, como pedaços de louça e latas”, explica Zorzete. Aliás, tudo que já foi encontrado está sendo cuidadosamente guardado, desde garrafas e copos a livros antigos e revistas, que serão catalogados.

Cooperativismo
Outra preocupação dos proprietários da escola é ampliar a formação dos alunos para além das técnicas de restauro. “Vamos falar também de outras questões, como cooperativismo e formação de empreendedores”, diz Zorzete. O objetivo é que alguns alunos tenham condições de formar equipes completas de trabalho, com pedreiros, encanadores e eletricistas especializados em restauro. “Não basta só trabalhar, eles têm de saber como chegar no mercado e, quem sabe, formar equipes e cooperativas.”
Não há previsão de quando o restauro completo da edificação será concluído, mas os alunos não devem ficar sem trabalhos práticos quando não houver mais o que fazer na residência. “Vamos para o bairro todo, onde há muito a ser feito”, explica Zorzete, apontando para as ruas do Bexiga.
Uma das propostas da Escola Paulista de Restauro é que ela não seja apenas dos alunos e fique nos limites do sobrado, voltado para poucas pessoas. Assim como o vizinho Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) é uma referência na história do teatro paulistano, a idéia é que a casa sirva como palco de reflexões e discussões sobre a preservação do patrimônio histórico, com palestras, workshops, debates, roteiros de turismo histórico e intercâmbios. No futuro, também deve ser montado um café e uma biblioteca aberta ao público.
“Queremos atrair a população para falar sobre a importância de preservação do patrimônio histórico”, diz. Ele cita como exemplo os moradores do prédio ao lado do sobrado, que, não raramente, atiram objetos pela janela, o que já danificou o telhado da casa. “As pessoas jogam coisas porque simplesmente não sabem o valor histórico da casa. Podem ter medo, por exemplo, de que ela seja invadida. É preciso informá-las, pois aí elas não jogam mais objetos.”

Agenda de Cursos:
METODOLOGIA de Projeto de Restauro para Bens de Interesse Histórico
O curso será ministrado por técnicos especializados da Companhia de Restauro e coordenado pela arquiteta restauradora Ana Marta Ditolvo, com aulas práticas e teóricas. O objetivo do curso é capacitar profissionais das áreas de arquitetura, engenharia, artes e história para atuação na área de restauração de patrimônio histórico.
Número de Vagas: 20
Período: Turma 1 e 2: 10,11, 17 e 18 de Fevereiro de 2006
Horário: Sexta-feira das 19 hs às 21:30 hs e sábados das 9 hs às 18 hs
Preço: R$ 800,00 (oitocentos reais), divididos em duas vezes.

ILUMINAÇÃO de Patrimônio Histórico
O curso será ministrado por Plinio Godoy, engenheiro elétrico formado pela Escola de Engenharia do Instituto Mauá de Tecnologia em 1988, diretor técnico da empresa Luz Urbana Engenharia, especializada em iluminação Urbana e de Valorização de Patrimônio Histórico. O objetivo do curso é capacitar profissionais das áreas afins para atuação específica na iluminação de patrimônio cultural.
Número de Vagas: 20
Datas: Turma 1: 15 de Fevereiro de 2006 - Turma 2: 15 de Março de 2006
Horário: das 9 hs às 18:00 hs - quartas feiras / Preço: R$ 200,00 (duzentos reais ), dividido em duas vezes

PROSPECÇÕES Estatigráficas
O curso será ministrado por Sidnei Fischer e Kátia Magri, Artistas Plásticos, com experiência de 19 anos em prospecções estatigráficas em obras de patrimônio histórico. Através de aulas práticas, tem por objetivo instrumentalizar profissionais das áreas afins para atuação em prospecções estruturais e pictóricas.
Número de Vagas: 20
Datas: Turma 1: 24, 25, 31 de Março e 01 de Abril de 2006 - Turma 2: 28, 29 de Abril e 05, 06 de Maio de 2006
Horário: das 9 hs às 17:00 hs / Preço: R$ 500,00, dividido em duas vezes